"(...)Sei que não posso acreditar em nenhum sentimento, em nenhum beijo, em nenhuma palavra(...)as pessoas são como são e não mudam, carregam como uma medalha de mérito o caos em que vivem.
Dizem "amo-te" quase tantas vezes quantas as que pedem uma bica, magoam-nos mesmo quando têm um sorriso nos lábios e têm uma necessidade de ficarem "amigos" quando querem expressar a sua incapacidade de nos amarem(...)e de todas as vezes me pergunto para onde é que caminhamos, que flôr de veneno carregamos, quem é que ainda precisa de alguém, para dizer bom dia, boa noite, amo-te para o resto inteirinho da minha vida, quero ficar velho ao teu lado e plantar-te muitas sementes de amor no teu ventre? Para onde foram as pessoas? (...)Então o que é que eu ando aqui a fazer?(...) Fazer canções tristes e chorar à chuva para que ninguém repare(...)
O amor salta-me de todos os poros e eu tenho que o sufocar com uma morte asfixiante e lenta de cada vez(...)
E eu pergunto-me o que é que eu faço aqui?
Alguém me fala de uma maldição a que temos que nos resignar, a uma solidão inacessível e ao facto de não poderem mudar em nada(...) e mais nada. Mais nada.
Esta ilha de dor cresce e eu já não sei falar para pedir socorro. Colocam o seu olhar em mim como num muro, sou um mero suporte, no meio há nós(...)que perturbam o fascínio doente que em mim exercem.
Metade dos rostos entram pelas paisagens adentro, sem pedirem licença, entram no meio das árvores vermelhas da memória, as suas raizes entram pelo meu sangue e abrem focos infecciosos, alimentam-se de mim, a seiva ferve, traz pedras misturadas. Devoram-me por dentro.
Só entram para me tirar algo. Depois saem.(...)Impossível não falar dos fios com que me cosem e amputam. Dos fios com que me atam, para eu me imobilizar. Então eu sofro.(...)
Eis os rostos, a fome de dizer tantas coisas, de as calar numa noite que não acabasse neste mundo, nestas vidas pequenas e egoistas, no pouco que se pode pedir, no nada que se pode esperar...instruções precisas para chorar, quando a água que se acumula cá dentro transborda em pequenas gotas que se suicidam do prédio inabitável da minha humanidade.(...)
Sento-me à janela e choro. Só isso. Sinto o maior desamparo e angustia. Sinto o frio do fim do mundo.
Mais vezes do que queria, comecei a viver à beira do mundo. Sou uma péssima equilibrista.(...)Estou cansada de esperar.Cansada de estar só. Sinto-me tão sózinha, longe de tudo. Cheguei à conclusão que andei sempre à espera de algo que não existe. Estou cansada de nunca ninguém ter feito um esforço para me alcançar nesta lonjura(...) como só faço falta na medida do que ofereço de mim, da minha utilidade reciclável, vêm-me à cabeça momentos suaves e azuis debaixo desta neve, deste gelo.(...) Das noites mal passadas a chorar momentos tão precários(...)de nada que verdadeiramente me preencha.(...) Sentir, dói.
No meio desta dormência, desta hibernação, viro as coisas e elas são ocas por dentro, vazias de sentido. As coisas estão destinadas a acabarem nas minhas mãos, vejo-as morrer mesmo antes de nascerem, ali, de boca escancarada. Se eu soubesse a palavra certa. Mas só há muros altos e intransponíveis, não há outro abrigo a não ser toda esta escuridão em que me tornaram, a que me atiraram.
NÃO ESPERAM MENOS QUE TUDO. Isso é impossível porque não resta nada.Sou constantemente alvo de torturas invisiveis, de agressões. Quem dera que os actos e as palavras não cortassem como um vidro tosco.(...) Abdicava da minha excessiva lucidez, da minha incontrolável ternura pelos outros, do meu cérebro para ser imune a tudo isto.
Pensam que falo do que sinto, mas nunca disse o mais importante, nunca disse as vezes em que sangrei como um animal à frente de todos. Afinal, eu já estou habituada, como me dizem tantas vezes.
Quem me dera não me sentir seca, de não sentir o impacto da queda. Ainda não entendi é como se continua a cair. Quantas vezes tive que me morder para engolir tanta perversidade e fascínio. Tanto jogo.(...)Sinto-me a desintegrar-me, tinha tanta alegria dentro de mim que sempre quis o cume. Estrangulam-me, sufoco, sinto que nunca consegui que percebessem todas as palavras que espalhei(...)caíram em saco roto.É um fardo ser(...)Eu não sei lidar com este mundo, com estas horas de pressa e egoísmo(...)Eu sempre acreditei nas palavras e achei que elas tinham a função de dizer o que eram, de serem as portas daquilo que somos e sentimos. Sempre achei que os gestos eram um reflexo do que nós sentiamos. Só anos mais tarde, demasiado tarde, é que vi que as palavras eram armadilhas para agarrar os bichos selvagens e intactos como eu(...)Acho que é a minha maldição, eu não consigo estar longe das pessoas e do amor que sinto por elas e de acreditar que tudo vai ser diferente amanhã, daqui a bocado. Que vai doer menos...
Não sei do interruptor para desligar esta dor. Alimento-me de fotografias gastas, de coisas que fui guardando, de pó, de restos...Tudo o que me dão no meio deste Abril trás um aguaceiro imenso metido no meio do coração. As coisas tornaram-se demasiado ácidas e salgadas para a minha saliva.
Talvez fuja da noite como duma pedra escura e vá agora desatar o nó da dor(...)"
De Sophia Colaço - in "Diz-me Então Como Correm Os Dias "
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